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domingo, 1 de maio de 2016

BOOK REVIEW | Vamos Comprar um Poeta


Título: Vamos Comprar um Poeta
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
Ano de edição: 2016
Páginas: 101

Sinopse: 

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito - como acontece com os pintores ou os escultores - mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual…

Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.


Opinião: 

Mais um livro de Afonso Cruz com o alto patrocínio da genialidade
(Quem já o leu sabe porque o digo)

Afonso Cruz deixa-me sempre sem palavras. 
Consegue sempre surpreender e, para mim, está melhor e melhor a cada novo livro. 
Prosa poética, crítica sagaz, imaginação ao rubro  como só ele sabe fazer.
Quando terminamos sentimos imediatamente vontade de voltar ao início, de mergulhar de novo nesta verdadeira ode à cultura, à poesia e à criatividade.

Uma experiência maravilhosa, ainda que demasiado rápida, que não devem mesmo perder. Entrada directa para os meus favoritos, onde já estão outros dois livros do autor.
E eu já a pensar na minha próxima leitura de Afonso Cruz!

"É que antes de adormecer faço abdominais e flexões e alongamentos com a imaginação, para aquecer as articulações e os músculos da fantasia. Não quero ter sonhos com mialgias de esforço."

Classificação:

quinta-feira, 21 de abril de 2016

BOOK REVIEW | O Pai


Título: O Pai
Autor: Roslund & Thunberg
Editora: Planeta
Ano de edição: 2016
Páginas: 520

Sinopse: 

Um livro muito intenso, baseado em factos verídicos, em que um dos autores faz parte da família de assaltantes e é protagonista do livro. Este thriller inebriante de cortar a respiração conta-nos a história de como três rapazes se transformam, ao longo da vida, de crianças inocentes nos criminosos mais procurados da Suécia. O seu vínculo foi forjado enquanto cresceram sob o jugo de uma família violenta.
E do homem que os moldou dessa forma: o pai.

Opinião: 

Numa altura em que os thrillers nórdicos proliferam nas prateleiras das livrarias, conquistando cada vez mais leitores portugueses, eis que dois escritores decidem juntar-se para “estilhaçar a realidade e reconstituí-la como ficção” no livro “O Pai” (Planeta, 2016).

Como se não bastasse ser baseado numa história verídica para aguçar o apetite dos leitores, descobrimos que um dos autores – Stefan Thunberg – está mais envolvido na trama do que aparentemente se julgaria: enquanto se tornava um dos mais notáveis guionistas da Escandinávia, o resto da família celebrizava-se como “os mais procurados e famosos assaltantes de bancos da Suécia”. É precisamente esta a história que encontramos nestas páginas, escritas juntamente com um nome de peso da literatura escandinava de criminalidade: Anders Roslund.

(...)
Não é por acaso que a edição portuguesa adquiriu – e bem – o título “O Pai”, fugindo ao original "Made in Sweden”. O lado mais forte e interessante desta história acaba mesmo por ser o retrato de três crianças que cresceram em constante medo de um pai violento e dominador, e o modo como essa relação se repercute psicologicamente neles ao longo dos anos. Aliás, centrar a história unicamente nos assaltos e na sua investigação seria demasiado linear e redutor. Os autores, tomando partido da posição privilegiada que já percebemos terem na história, trazem algo verdadeiramente diferenciador relativamente a outros thrillers policiais: a visão de dentro. (...)

Ainda que a história seja cativante e impressione pela conturbada relação pai-filho – chegando mesmo a tirar-nos do sério pelas atitudes negligentes e de incitação à violência por parte do pai –, a estrutura da narrativa nem sempre permite uma boa fluidez de leitura. À intercalação entre o então e o agora soma-se a alternância entre as perspectivas das várias personagens que, não se limitando à visão dicotómica polícia versus criminosos, acaba por criar, apenas numa primeira fase, alguma confusão no leitor. Apesar de ser evidente o esforço numa visão completa e aprofundada das vidas retratadas, sente-se que em determinadas situações o livro se torna demasiado longo – 520 páginas –, e que alguns pormenores poderiam ter ficado de parte. Com o avançar da leitura não só a narrativa fica melhor articulada como aumentam os momentos de tensão que nos fazem espreitar o mundo do crime.

Escrito a quatro mãos, “O Pai” tem no toque de autenticidade a sua maior atracção. Mais do que um thriller, estamos perante um drama psicológico que nos mostra como uma infância no seio de uma família violenta pode transformar três inocentes irmãos nos criminosos mais procurados da Suécia. A cada minuto é como estar lá a presenciar os roubos, a vivenciar a dinâmica do grupo, as motivações e as fraquezas que ficam cada vez mais evidentes com a aproximação do final. Uma trama digna de filme e a DreamWorks não perdeu tempo : os direitos já foram vendidos e a realização ficará a cargo de Steven Spielberg.


Opinião completa no Deus me Livro
Classificação:

segunda-feira, 18 de abril de 2016

BOOK REVIEW | o nosso reino, de valter hugo mãe


Título: o nosso reino
Autor: valter hugo mãe
Editora: QuidNovi
Ano de edição: 2009
Páginas: 151

Sinopse: 

Delicadíssima história de uma criança em torno da ansiedade por uma resposta de Deus. Retrato de um Portugal recôndito ao tempo da Revolução dos Cravos que nos conta como em lugares pequenos as ideias maiores são relativamente intemporais e o que acontece ignora largamente o tempo exacto do mundo.

O belo livro de estreia de valter hugo mãe é uma fulgurante prova de imaginação e beleza. Entre a profunda ternura e a difícil aprendizagem da vida, cada dia é um esforço para que se prove a existência do milagre de se ser alguém.


Opinião: 

"o nosso reino" é o romance de estreia de valter hugo mãe e também a minha primeira experiência de leitura com o autor. Infelizmente, não posso dizer que tenha sido uma leitura especialmente prazerosa.

A primeira coisa que salta à vista é sem dúvida o estilo de escrita do autor. Quem já leu sabe do que falo: falta de letras maiúsculas, uma pontuação que se resume a pontos e vírgulas, numa narrativa graficamente corrida que se procura aproximar ao português falado.

Se este estilo de escrita   que o autor define como "limpeza formal do texto é uma mera despreocupação estilística ou, pelo contrário, um rasgo de génio, não o posso dizer. Que o torna diferente, disso não tenho dúvida. Independentemente de toda a discussão que se pode ter em torno do estilo peculiar do autor, a verdade é que me deparei com um texto extremamente denso, até difícil de ler, exigindo uma grande atenção por parte do leitor. É verdade que o ritmo de leitura vai aumentando à medida que nos habituamos à escrita, mas a verdade é que continua lento. 

Posto isto, acredito que o que prejudicou a minha leitura foi o facto do livro ter sugado por completo a minha atenção para a componente estilística, ao invés da história em si, que essa sim acredito ter uma premissa bastante interessante. 

Em traços muito gerais, acompanhamos a busca de perfeição espiritual por parte de um menino de oito anos, que quer ser santo. O livro começa com uma personagem muito intrigante (que adorei): "o homem mais triste do mundo", correspondente à figura do coveiro, a pessoa que anda de mão dada com a morte. São precisamente a morte e a religiosidade os pontos fulcrais do livro. valter hugo mãe tem o mérito de nos transportar directamente para o ambiente criado, fazendo-nos sentir dor, medo e desespero perante a perda de entes queridos. Em "o nosso reino", procuramos, juntamente com o narrador, compreender o mundo dividindo-o entre o céu e o inferno, numa visão muito realista do Portugal de outrora (que talvez não seja tão outrora assim).

Agarro-me à esperança de que os romances seguintes de valter hugo mãe consigam exercer um fascínio maior em mim, porque queria mesmo (mesmo) gostar deste autor. 

Classificação:

segunda-feira, 4 de abril de 2016

BOOK REVIEW | Quando os Ciprestes Davam Laranjas


Título: Quando os Ciprestes Davam Laranjas - Memórias do Painho
Autor: Jorge Romão
Editora: Chiado Editora
Ano de edição: 2016
Páginas: 284

Sinopse: 

Não é um romance. Não é um ensaio. Não é uma biografia. Não é um livro de contos. Quando os ciprestes davam laranjas, é um conjunto de textos, num registo directo e incisivo, como um bisturi, de cujos recortes ressalta o sangue da ironia e do afecto. Neles, o autor relata memórias da sua infância e juventude, que entrelaça com pedaços de vida das gentes de uma aldeia, nas décadas de 60 e 70, do século passado. 

Através de um discurso narrativo, quase cinematográfico, despretensioso e cru, ora humorístico ora sofredor (sem nunca resvalar para a pieguice), consegue transportar-nos para aquele tempo, e trazer à nossa presença o pulsar da vida, os cheiros da terra molhada, o cantar dos galos, o chilrear das andorinhas ou o vermelho das papoilas. 
Há textos que sangram e outros que provocam o riso. Nos mais intimistas, o autor desnuda-se perante o leitor e desvenda dores e alegrias que o marcaram. A partir de provérbios, crenças e costumes, que pontua com reflexões sobre Deus, o mundo ou a morte, dá-nos um retrato antropológico e social da época, em que se debruça sobre o papel do Estado Novo, da Igreja e da mulher.

Há Histórias de encantar e de desencantar. Uma galinha que se suicida por amor, e outras que fazem greve. Bruxas, lobisomens e cobras aladas. Superstições, céus de amores-perfeitos e uma burra esfomeada. Enxadas, moinhos, carroças e estendais de ceroulas. Minas de água fresca e restolhos de trigo. Procissões, um pato que vai à missa, velórios, bandas a tocar e foguetes no ar. E há pessoas. Pessoas de carne e osso. No final, fica a verve, o sangue, os afectos e a terra. O pulsar da vida, tal como ela é.



Opinião: 

Situado entre a vila do Cadaval e a cidade das Caldas de Rainha está o Painho, aldeia que viu nascer, crescer e fazer-se homem Jorge Romão – que agora, num registo intimista, procura resgatar as memórias do passado e “preservá-las do vazio do esquecimento”, prestando um terno tributo à terra do seu coração. Em “Quando os Ciprestes Davam Laranjas”(Chiado Editora, 2016) – com o sub-título Memórias do Painho -, o autor abre o álbum da sua vida, desfiando“memórias de infância, histórias familiares e relatos de costumes e vivências” entrelaçando, ao mesmo tempo, considerações sobre a vida e a mudança dos tempos. (...)

Enredando “recortes de vidas e retratos de pessoas que as viveram”, Jorge Romão traça a imagem do país de antigamente, de que as suas memórias de infância e juventude, histórias e relatos ouvidos são testemunho fiel. A matança do porco, a comida feita na fornalha, o Borda d’Água que ditava o tempo das sementeiras e das colheiras, a típica mercearia em que tudo era vendido a granel, o sabão azul e branco, a escola com “o crucifixo, as fotografias dos estadistas, o estrado de madeira e o quadro de ardósia”, a régua de madeira que traduzia a máxima “mãos frias, inteligência quente”, o triunvirato FFF – Fátima, Futebol e Fado –, as superstições e as crenças religiosas – tudo isto é o espelho do Portugal de outrora. (...)

Numa escrita leve, directa, despretensiosa e repleta de sabedoria popular, onde pautam o ritmo os provérbios, o humor mas sobretudo o afecto, este é um livro que permite aos mais novos conhecer a realidade do Estado Novo e, a todos os outros, reviver o passado reencontrando um pouco da sua identidade reflectida, desde as peripécias da meninice à saída do ninho.

Com situações muito pessoais mas que simultaneamente fazem parte do imaginário comum, “Quando os Ciprestes Davam Laranjas” é, acima de tudo, uma escrita com sentimento – amor à terra, à vida e às pessoas de carne e osso que dela fazem parte. Afinal, na altura “o que faltava em conforto sobrava em afectos”, e esses juntaram-se todos aqui para honrar as gentes de Painho que, no final, já tratamos por tu.

Opinião completa no Deus me Livro
Classificação:

sexta-feira, 1 de abril de 2016

BOOK REVIEW | As figuras que fazes


Título: As Figuras que Fazes
Autor: David Scarfe
Editora: Vogais
Ano de edição: 2016
Páginas: 128

Sinopse: 

Todos gostávamos de construir coisas quando éramos pequenos. Então porquê parar agora que somos adultos? Este livro é para todas as crianças grandes que ainda querem brincar.
Seja para construir uns dados em LEGO® para enfeitar o seu carro, ou fazer umas bases para copos em forma de disquete para oferecer a amigos, estes projetos são perfeitos. Para além disso, são divertidos de construir e darão à sua casa um ar de nostalgia muito especial. Estas são construções para todos os gostos, práticas e de inspiração retro, desde as mais fáceis e rápidas de concretizar até às verdadeiramente desafiantes para os mais experientes fãs de LEGO®.
Ao seguir peça a peça as instruções fáceis e detalhadas deste livro, poderá fazer de tudo, desde úteis cerra livros, vasos para flores cheios de estilo ou originais patos-bravos, até chaveiros gigantes ou suportes para garrafas em forma de robô.
Delicie-se com as suas figuras originais em LEGO®, e prove que estas fantásticas peças não são, definitivamente, só para miúdos.



Opinião: 

Apresentando 21 propostas, David Scarfe convida “todas as crianças grandes que ainda querem brincar” a revisitarem a caixa de Legos, prometendo deixá-las pregadas ao tapete em momentos de pura nostalgia infantil.

“As Figuras que Fazes” é um manual que ensina, passo a passo, construções para todos os gostos, desde as mais simples – bases para copos em forma de disquete, decorações de Natal ou Halloween – às mais insólitas – suporte de torradas em forma de chama ou vasos em forma de granada. Pelo meio há ainda lugar para ideias originais e criativas – mas simultaneamente úteis e práticas –, como o conjunto de arrumação para secretária em forma de invasores espaciais, os cerra livros em forma de cursor ou os chaveiros gigantes. 
(...)

Esta é uma edição de capa dura, bem caprichada, com páginas cheias de cor e um papel capaz de resistir às mais desafiantes aventuras de construção. Um livro que nos faz largar os ecrãs e deitar mão aos legos, deixando claro que não há limites para a imaginação ou idade para deixar que estas construções revivalistas invadam as nossas casas.

Opinião completa no Deus me Livro
Classificação:

quinta-feira, 31 de março de 2016

BOOK REVIEW | O Bando das Cavernas: Vem Aí o Ogima


Título: O Bando das Cavernas: Vem Aí o Ogima
Autor: Nuno Caravela
Editora: Booksmile
Ano de edição: 2016
Páginas: 128

Sinopse: 

Este livro, vindo dos confins do tempo, está repleto de aventuras e gargalhadas. Tudo por causa de um grupo muito especial de amigos: o Tocha, a Ruby, o Menir, o Kromeleque, o Tzick e o Sabre. Eles são o Bando das Cavernas!
O que será um Ogima? Será um monstro pré-histórico? Decidido a desvendar este mistério, o Bando parte ao encontro de um dos maiores sábios de sempre, que vive na fronteira entre o mundo conhecido e o mundo desconhecido.
Pelo caminho, atravessam o prado das superirritantes ervas-rasteiras, conhecem três Trogloditas que nunca tinham saído da sua caverna e visitam a Ilha dos Monstros Imaginários… onde são devorados. Como é que eles escaparam e descobriram o que é um Ogima?
Bem… para descobrires terás de ler mais esta divertida aventura.


Opinião: 

O Bando das Cavernas: Vem Aí o Ogima” (Booksmile, 2016) é o décimo segundo livro de uma colecção que vem, já desde 2012, conquistando os leitores mais novos. (...)

Com uma escrita simples, adequada à faixa etária a que se propõe mas bastante expressiva, Nuno Caravela leva os jovens a refletirem sobre o medo do desconhecido: “– Porque é que julgamos sempre que é mau tudo aquilo que é desconhecido? – Ora, porque… porque é desconhecido! – disse o Kromeleque.”

A par da escrita estão as ilustrações, que carregam de cor e vida todas as páginas do livro. (...)


“O Bando das Cavernas: Vem Aí o Ogima” é uma leitura infantil muito divertida, repleta de mistério, aventura, descoberta e a sabedoria de P.Latão. Este volume da série, 100% portuguesa, cumpre o desejo do autor e ilustrador: “divertir e estimular a imaginação dos mais novos”. 

Opinião completa no Deus me Livro
Classificação:

quinta-feira, 24 de março de 2016

BOOK REVIEW | A Cidade nos Confins do Céu


Título: A Cidade nos Confins do Céu
Autor: Elif Shafak
Editora: Jacarandá
Ano de edição: 2016
Páginas: 512

Sinopse: 

A Cidade nos Confins do Céu é uma história deslumbrante e complexa de Elif Shafak, autora do bestseller A Bastarda de Istambul.
«Éramos seis: o mestre, os aprendizes e o elefante branco. Construíamos tudo em conjunto.»
Um forasteiro chega a Istambul com uma dádiva extraordinária para o Sultão. O jovem está sozinho numa terra estranha, sem quaisquer posses exceto Chota, um raro elefante branco destinado à coleção de animais selvagens do palácio.
Assim começa a aventura épica passada no século XVI que irá acompanhar a ascensão de Jahan desde as origens humildes até às posições mais elevadas na corte do Sultão. Pelo caminho conhecerá cortesãos fraudulentos, falsos amigos, ciganos, domadores de animais e a bela e maliciosa princesa Mihrimah. Fará uma viagem no dorso de Chota até às zonas mais recônditas do reino e regressará à corte. Conhecerá Sinan, o arquiteto real, num encontro que mudará o seu destino.



Opinião: 


Em “A Cidade nos Confins do Céu” (Jacarandá, 2016) somos levados pela mão de Jaham a “perscrutar o coração de Istambul”, numa história peculiar sobre o amor – o amor pela aprendizagem e a aprendizagem do amor.

Através do menino de nove anos, “sozinho numa terra estranha”, somos introduzidos nesta cidade de encontro de civilizações, onde convergem povos com diferentes religiões, hábitos e crenças, que deixarão bastante curiosos os leitores ocidentais, especialmente no que toca a superstições. A história segue num ritmo pausado, permitindo ao leitor absorver as informações históricas – porque é de um romance histórico que se trata – e, simultaneamente, deixar-se conquistar pelas personagens.

Jaham pode-se assumir como protagonista, mas Elif Shafak preenche o nosso imaginário com uma panóplia de personagens intimamente construídas, que sentimos vivas e com alma. (...)

Para além de demonstrar uma incrível destreza em viver fora do seu tempo, ambientando-nos a deslumbrantes cenários do século XVI, a autora brinda-nos com uma prosa rica e elegante, que nos faz querer viajar de imediato para o Oriente. (...)

Ao longo de mais de 500 páginas, a história está repleta de lições e pequenos contos místicos, que agradarão sobretudo aos sonhadores e apaixonados pela cultura oriental. A par da beleza – não só da capa, que nos perdemos a contemplar – destaca-se a tolerância dos sábios que amam aprender: “os homens ignorantes pensam que estamos aqui para lutar, fazer guerras, acasalar e ter filhos. Não, o nosso trabalho é expandir o nosso conhecimento. É por isso que estamos aqui.

Numa mistura entre aventura, romance, suspense e espiritualidade, “A Cidade nos Confins do Céu” vai exercer um profundo fascínio sobre o Império Otomano, encarnando vivamente a grandeza da cidade de Istambul e da sua população. Num doce equilíbrio entre história e ficção, com apaixonantes personagens imaginadas – como Jaham e Chota – e referências históricas ímpares – como Miguel Ângelo, Dante e Sinan -, este é um livro que facilmente cumprirá o desejo da autora: “fluir como água no coração dos seus leitores.

Opinião completa no Deus me Livro
Classificação:

sexta-feira, 18 de março de 2016

BOOK REVIEW | A Abadia dos Cem Pecados


Título: A Abadia dos Cem Pecados
Autor: Marcello Simoni
Editora: Clube do Autor
Ano de edição: 2016
Páginas: 368

Sinopse: 

Agosto de 1346. França e Inglaterra estão em guerra. No final da batalha de Grécy, o rei da Boémia, já moribundo, entrega a um cavaleiro francês, Maynard de Rocheblanche, um pergaminho com um misterioso enigma. Este obscuro texto faz referência a uma relíquia preciosa, o Lapis exilii. São muitos os que procuram apoderar-se dele, nomeadamente o ambicioso cardeal de Avinhão e o príncipe Karel do Luxemburgo, ansioso por se fazer imperador.


Opinião: 

Marcello Simoni volta a dar cartas no romance histórico, com o início de uma trilogia que promete agarrar os leitores ávidos de intrigas e mistérios passados na idade medieval“A Abadia dos Cem Pecados” (Clube do Autor, 2016) transporta-nos para o ano de 1346, uma época marcada não só pela luta pela supremacia política, com a guerra entre França e Inglaterra, mas também pelo forte domínio religioso. É precisamente desta combinação que nasce o enredo desta história, que nos leva pelos meandros obscuros da luta por uma poderosa relíquia.


Para além do mistério constante, Marcello Simoni presenteia-nos com descrições que nos fazem revisitar outro tempo, outras gentes e outros costumes: a riqueza arquitectónica, com a descrição de imponentes abadias, catedrais e dos frescos que aí se podiam contemplar; o retrato fiel da vida monástica (e também laica), com lugar para pecados como a cobiça e a luxúria; a atmosfera de Ferrara, onde o autor cresceu e aqui tornou palco da narrativa. Além de bem descritos, os ambientes são extremamente visuais e envolventes, fazendo-nos deambular pelas ruas lado a lado com os protagonistas, em viagens que chegam a durar semanas ou até meses.

Não fosse Marcello Simoni ser considerado por muitos “um especialista em romances históricos“, vemos aqui umequilíbrio irrepreensível entre factos históricos e ficção. Sem ser maçador mas de forma completa, vai-nos guiando pelo desenrolar da trama, fazendo questão de esclarecer, em momento oportuno, o que é real e o que é fruto da sua imaginação, deixando ainda algumas fontes que comprovam a fidelidade da reconstrução histórica no seu trabalho.

As pequenas revelações que vão pautando o ritmo da narrativa fazem-nos ansiar por um desfecho… que não chega. No fim, o leitor é deixado num sentimento agridoce, apercebendo-se facilmente que “A Abadia dos Cem Pecados” é uma introdução a um enredo que se prevê, nos próximos dois volumes, ainda mais complexo. Falar das misteriosas questões deixadas em aberto seria, segundo o autor, aniquilar o sentido da descoberta – “E isto, no âmbito da ficção, equivalia a um pecado mortal”. Ficamos então à espera!


Opinião completa no Deus me Livro
Classificação:

domingo, 28 de fevereiro de 2016

BOOK REVIEW | A Invenção de Hugo Cabret


Título: A Invenção de Hugo Cabret
Autor: Brian Selznick
Editora: Edições Gailivro
Ano de edição: 2008
Páginas: 544


Sinopse: 

Órfão, guardião dos relógios e ladrão, Hugo vive por entre as paredes de uma movimentada estação de comboios parisiense, onde a sua sobrevivência depende de segredos e do anonimato. Mas quando, repentinamente, o seu mundo se encaixa - tal como as rodas dentadas dos relógios que vigia - com o de uma excêntrica rapariga amante de livros e o de um velho amargo, dono de uma lojinha de brinquedos, a vida secreta de Hugo e o seu segredo mais precioso são colocados em risco. Um desenho misterioso, um bloco que vale ouro, uma chave roubada, um homem mecânico e uma mensagem escondida do falecido pai de Hugo formam a espinha dorsal deste intrincado, terno e arrebatador mistério.


Opinião: 

Esta foi uma experiência única de leitura, ou não estivéssemos a falar de uma verdadeira obra de arte.
A invenção de Hugo Cabret é a prova viva de como uma história simples, mas encantadora, consegue ser levada ao expoente máximo quando bem contada e, neste caso, com uma narrativa bastante peculiar. Intercalando palavras com ilustrações, da sua própria autoria, Brian Selznick eleva as ilustrações a um novo patamar, tornando-as verdadeiramente parte integrante da história. A cada folhear de página, as belíssimas ilustrações a carvão ganham vida, bem ao estilo do stop motion

Sabendo que estamos perante uma obra que homenageia os primórdios do cinema, em particular o mágico francês Georges Méliès, haveria melhor forma de contar esta história do que recorrendo a esta técnica? Não, não havia. E é por ser tão bem pensada e concebida que toda a obra se torna extremamente especial

Aliando realidade e ficção, num cenário mágico e misterioso, repleto de momentos comoventes e acções simbólicas que se revelam ao leitor mais atento, este é sem dúvida um livro que não devem perder!


Classificação:


Agora resta-me ver o filme!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

BOOK REVIEW | Amemo-nos uns aos outros


Título: Amemo-nos uns aos outros
Autor: Catherine Clément
Editora: Porto Editora
Ano de edição: 2016
Páginas: 272


Sinopse: 

Em 1871, a Comuna de Paris, a mais nobre revolução que o mundo já conheceu, incendiou os corações e as ruas.

Élisabeth Dmitrieff é a enviada e representante de Karl Marx na capital francesa. Jovem, tão frágil quanto arrebatadora, recusa-se a amar algo ou alguém que não a revolução. Léo Frankel, revolucionário húngaro e também ele membro da Primeira Internacional, tem o sonho de construir um modelo ideal de sociedade sem exploradores nem explorados. Mas poderá o amor nascer na insurreição e sobreviver no coração da barricada?

Numa escrita apaixonada e de ritmo alucinante, combinando personalidades históricas como Louise Michel, Victor Hugo, Karl Marx ou Georges Clemenceau com personagens ficcionadas, Catherine Clément faz o retrato literário destes dias trágicos e gloriosos, «que começaram com a alegria e terminaram com o sangue», oferecendo-nos uma narrativa de esperança e de sonho, numa homenagem a todos cujas vidas foram tocadas pelo Génio da Liberdade.


Opinião: 

"A nossa divisa estava bordada a vermelho e ouro, AMEMO-NOS UNS AOS OUTROS, com o verbo «amar» a envolver num semicírculo «uns» e «aos outros». E essas palavras caíam-me bem. O amor em vez da guerra!”

A autora cativa-nos logo no capítulo inicial, com um narrador no mínimo improvável – o Génio da Liberdade, a escultura da praça da Bastilha que ainda hoje podemos ver naquele lugar, “Empoleirado na minha coluna, de pé no ar, sexo ao léu, com as minhas grandes asas abertas, a minha estrela na testa, o archote numa mão e uma cadeia quebrada na outra” – foi assim que presenciou o clamor das multidões que pelo palco das revoluções francesas passaram e, também, todas as batalhas, vitórias e derrotas que aqui se vão narrar.

(...)
Catherine Clément dá-nos uma visão muito completa destes tempos agitados, contrapondo aqueles que, tal como Léo, estão “do lado da insurreição e da violência legítima”; com os que, como Abel, não suportam a violência. A visão adquire os 360 graus quando, a par das investidas militares, questões políticas e princípios e medidas defendidos pela Internacional, a autora nos presenteia com descrições bastante autênticas e visuais do ambiente parisiense da época, mostrando ainda as consequências práticas desses dias sangrentos no povo.

A forte componente histórica do livro acaba por dar as mãos ao romance quando introduzimos na história Élisabeth Dmitrieff, uma jovem russa representante de Karl Marx na Comuna, que se recusa “a amar algo ou alguém que não a revolução”. Lisa, a par de outras personagens, vem trazer um ponto diferenciador e fortíssimo nesta obra: o papel da mulher na revolução. No que a isto diz respeito, “Amemo-nos uns aos outros” é soberbo. (...)

A linguagem, que se aproxima a uma conversa com o leitor, reúne o melhor de dois mundos: a proximidade que só o discurso na primeira pessoa oferece e o conhecimento de todos os acontecimentos de que só um narrador omnipresente é capaz.

Numa altura em que se defendia “não gastar energia com amores vãos”, não faltam elementos nesta história que contrariem a premissa “não há lugar para o amor durante a Revolução”. Misturando de forma brilhante personagens fictícias e reais, Catherine Clément dá-nos uma verdadeira lição de história prestando, simultaneamente, uma sentida homenagem “a todos cujas vidas foram tocadas pelo Génio da Liberdade”. O Génio que tudo presenciou e que, na praça da Bastilha, relembra a todos os parisienses o duro preço da vitória da liberdade.

“Léo tinha razão em filiar-se na Internacional. Era quase o meu lema – Amemo-nos uns aos outros –, só que esse amor está na ponta das nossas espingardas.”


Opinião completa no Deus me Livro
Classificação:

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

BOOK REVIEW | O Circo dos Sonhos



Título: O Circo dos Sonhos
Autor: Erin Morgenstern
Editora: Civilização Editora
Ano de edição: 2012
Páginas: 464


Sinopse: 

Um misterioso circo itinerante chega sem aviso e sem ser precedido por anúncios ou publicidade. Um dia, simplesmente aparece. No interior das tendas de lona às listas pretas e brancas vive-se uma experiência absolutamente única e avassaladora. Chama-se Le Cirque des Rêves (O Circo dos Sonhos) e só está aberto à noite.
Mas nos bastidores vive-se uma competição feroz - um duelo entre dois jovens mágicos, Celia e Marco, que foram treinados desde crianças exclusivamente para este fim pelos seus caprichosos mestres. Sem o saberem, este é um jogo onde apenas um pode sobreviver, e o circo não é mais do que o palco de uma incrível batalha de imaginação e determinação. Apesar de tudo, e sem o conseguirem evitar, Celia e Marco mergulham de cabeça no amor - um amor profundo e mágico que faz as luzes tremerem e a divisão aquecer sempre que se aproximam um do outro.
Amor verdadeiro ou não, o jogo tem de continuar e o destino de todos os envolvidos, desde os extraordinários artistas do circo até aos seus mentores, está em causa, assente num equilíbrio tão instável quanto o dos corajosos acrobatas lá no alto.

Escrito numa prosa rica e sedutora, este romance arrebatador é uma dádiva para os sentidos e para o coração. O Circo dos Sonhos é uma obra fascinante que fará com que o mundo real pareça mágico, e o mundo mágico, real.


Opinião: 

Que livro fantástico! Há muito que um livro não me encantava assim. 
Senti-me completamente sugada para este mundo mágico, envolto numa profunda aura de mistério, do qual sinto que ainda não saí.

Nada digo sobre a história em si porque acredito que, quanto menos se souber, melhor será a experiência de leitura. Imaginem apenas um circo... onde tudo é possível!
O Circo dos Sonhos reúne um conjunto de características que o tornam absolutamente delicioso. Para começar, o mundo em si e as personagens extremamente misteriosas e cativantes que aqui se movimentam. 

A cereja no topo do bolo: a escrita envolvente, criativa, hipnótica
Erin Morgenstern não só tem uma imaginação fértil, como é extremamente hábil em descrições, que ocupam grande parte deste livro. Algo que poderia se tornar maçador, torna-se extremamente enfeitiçante.
Nós somos parte integrante da história desde o primeiro momento, através de capítulos que falam directamente connosco, descrevendo o que vemos e sentimos. Uma interacção com o leitor que, sem dúvida, o torna especial. Como se isto não bastasse, a autora oferece-nos diferentes perspectivas dos acontecimentos pela visão de diferentes personagens, em sucessivos avanços e recuos temporais.

Desenganem-se os que, a julgar pela capa (lindíssima, diga-se de passagem), pensam que é um livro preto e branco: aqui há lugar para todas as matizes de cor, sons e cheiros, que nos levam para bem longe do mundo real. N'O Circo dos Sonhos cada elemento mágico e cada sonho ganham vida. 


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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

BOOK REVIEW | Como Água para Chocolate


Título: Como Água para Chocolate
Autor: Laura Esquivel
Editora: ASA
Ano de edição: 1997
Páginas: 229


Sinopse: 

Neste romance surpreendente e admirável, que revelou ao leitor português uma grande escritora mexicana, toda a trama narrativa roda em torno da cozinha e de um certo número de elementos culinários. Cada capítulo abre com uma receita fora do comum (mas ao mesmo tempo perfeitamente realizável), a pretexto e em volta da qual não apenas se juntam os comensais, mas também se “cozem” e “temperam” amores e desamores, risos e prantos, e se celebra o triunfo da alegria e da vida sobre a tristeza e a morte. 
Enorme sucesso editorial, Como Água para Chocolate foi já traduzido em numeros países e adaptado ao cinema.


Opinião: 

Como água para chocolate é um romance nem sempre doce, mas intenso em emoções. 
Muito mais do que receitas, aqui cozinham-se sentimentos até ao ponto de ebulição.
 Laura Esquivel, inserindo-nos no México rural do início do século XX, faz-nos torcer para que o amor prevaleça neste conflito com as tradições.

A escrita da autora torna-se muito agradável ao fundir receitas, ingredientes e modos de preparação com toda a carga emotiva da personagem principal - Tita. A projecção das emoções de Tita para os cozinhados, e a forma como estes posteriormente são transferidos para os que com eles se deliciam, é sem dúvida o ponto alto deste romance. 
A cada mês uma nova receita e, consequentemente, uma diferente emoção e diferentes reacções nos comensais.

Apesar da história base em si ser bastante comum, o exagero, o humor, uma pitada de magia e as constantes reviravoltas trágicas verdadeiramente típicas do romance mexicano, aliadas à importância e simbolismo que a comida adquire, fazem deste um romance muito especial.

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