segunda-feira, 4 de abril de 2016

BOOK REVIEW | Quando os Ciprestes Davam Laranjas


Título: Quando os Ciprestes Davam Laranjas - Memórias do Painho
Autor: Jorge Romão
Editora: Chiado Editora
Ano de edição: 2016
Páginas: 284

Sinopse: 

Não é um romance. Não é um ensaio. Não é uma biografia. Não é um livro de contos. Quando os ciprestes davam laranjas, é um conjunto de textos, num registo directo e incisivo, como um bisturi, de cujos recortes ressalta o sangue da ironia e do afecto. Neles, o autor relata memórias da sua infância e juventude, que entrelaça com pedaços de vida das gentes de uma aldeia, nas décadas de 60 e 70, do século passado. 

Através de um discurso narrativo, quase cinematográfico, despretensioso e cru, ora humorístico ora sofredor (sem nunca resvalar para a pieguice), consegue transportar-nos para aquele tempo, e trazer à nossa presença o pulsar da vida, os cheiros da terra molhada, o cantar dos galos, o chilrear das andorinhas ou o vermelho das papoilas. 
Há textos que sangram e outros que provocam o riso. Nos mais intimistas, o autor desnuda-se perante o leitor e desvenda dores e alegrias que o marcaram. A partir de provérbios, crenças e costumes, que pontua com reflexões sobre Deus, o mundo ou a morte, dá-nos um retrato antropológico e social da época, em que se debruça sobre o papel do Estado Novo, da Igreja e da mulher.

Há Histórias de encantar e de desencantar. Uma galinha que se suicida por amor, e outras que fazem greve. Bruxas, lobisomens e cobras aladas. Superstições, céus de amores-perfeitos e uma burra esfomeada. Enxadas, moinhos, carroças e estendais de ceroulas. Minas de água fresca e restolhos de trigo. Procissões, um pato que vai à missa, velórios, bandas a tocar e foguetes no ar. E há pessoas. Pessoas de carne e osso. No final, fica a verve, o sangue, os afectos e a terra. O pulsar da vida, tal como ela é.



Opinião: 

Situado entre a vila do Cadaval e a cidade das Caldas de Rainha está o Painho, aldeia que viu nascer, crescer e fazer-se homem Jorge Romão – que agora, num registo intimista, procura resgatar as memórias do passado e “preservá-las do vazio do esquecimento”, prestando um terno tributo à terra do seu coração. Em “Quando os Ciprestes Davam Laranjas”(Chiado Editora, 2016) – com o sub-título Memórias do Painho -, o autor abre o álbum da sua vida, desfiando“memórias de infância, histórias familiares e relatos de costumes e vivências” entrelaçando, ao mesmo tempo, considerações sobre a vida e a mudança dos tempos. (...)

Enredando “recortes de vidas e retratos de pessoas que as viveram”, Jorge Romão traça a imagem do país de antigamente, de que as suas memórias de infância e juventude, histórias e relatos ouvidos são testemunho fiel. A matança do porco, a comida feita na fornalha, o Borda d’Água que ditava o tempo das sementeiras e das colheiras, a típica mercearia em que tudo era vendido a granel, o sabão azul e branco, a escola com “o crucifixo, as fotografias dos estadistas, o estrado de madeira e o quadro de ardósia”, a régua de madeira que traduzia a máxima “mãos frias, inteligência quente”, o triunvirato FFF – Fátima, Futebol e Fado –, as superstições e as crenças religiosas – tudo isto é o espelho do Portugal de outrora. (...)

Numa escrita leve, directa, despretensiosa e repleta de sabedoria popular, onde pautam o ritmo os provérbios, o humor mas sobretudo o afecto, este é um livro que permite aos mais novos conhecer a realidade do Estado Novo e, a todos os outros, reviver o passado reencontrando um pouco da sua identidade reflectida, desde as peripécias da meninice à saída do ninho.

Com situações muito pessoais mas que simultaneamente fazem parte do imaginário comum, “Quando os Ciprestes Davam Laranjas” é, acima de tudo, uma escrita com sentimento – amor à terra, à vida e às pessoas de carne e osso que dela fazem parte. Afinal, na altura “o que faltava em conforto sobrava em afectos”, e esses juntaram-se todos aqui para honrar as gentes de Painho que, no final, já tratamos por tu.

Opinião completa no Deus me Livro
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